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Vejam o Quão Grande é o Seu Amor

Everson Alessandro · 1 João 3:1-2

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Descrição

“Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu.” Não é uma afirmação genérica sobre a bondade divina, mas uma exortação para que reconheçamos algo capaz de mudar tudo: somos chamados filhos de Deus, e de fato somos.

Essa identidade não é conquistada, mas concedida. E é justamente aí que reside a grandeza do amor de Deus.

Moisés foi colocado no Nilo por uma mãe que o amava demais para deixá-lo morrer sob o decreto do faraó. Samuel foi deixado no templo aos cuidados de Eli ainda pequeno, enquanto sua mãe, Ana, voltava uma vez por ano para visitá-lo e levar-lhe uma túnica nova. Dois homens que marcaram gerações, ambos formados longe de casa e moldados também pelas ausências.

Isso revela algo contraintuitivo: as ausências nem sempre destroem a identidade. Em muitos casos, contribuem para consolidá-la. Moisés cresceu na corte do faraó, com nome, vestimentas e educação egípcios. Ainda assim, quando viu um capataz maltratando um hebreu, sua identidade veio à tona: ele sabia que pertencia àquele povo. A voz de sua mãe, que o acompanhou nos primeiros anos, havia deixado uma marca que nenhuma corte poderia apagar.

Samuel também cresceu longe da família, em um ambiente imperfeito, mas tornou-se o profeta que ungiu reis e cuja voz era reconhecida como palavra do Senhor. A semente plantada por Ana e Elcana frutificou mesmo à distância.

Quanto mais longe conseguimos olhar para trás, mais longe podemos enxergar à frente. Essa ideia nos lembra que conhecer nossas origens ajuda a compreender nosso destino. Quem sabe de onde veio encontra mais clareza para decidir aonde vai.

João escreve a uma igreja abalada por ensinos que colocavam em dúvida a identidade dos que criam em Cristo. Por isso, sua afirmação é enfática: não apenas somos chamados filhos de Deus, mas de fato somos. Não se trata de um título honorário, mas de uma realidade.

Entretanto, duas barreiras frequentemente nos impedem de receber esse amor: o orgulho e a incredulidade. O orgulho exige que provemos nosso valor antes de receber. Ele diz: “Quando eu melhorar o suficiente, poderei aceitar que Deus me ama.” Assim, transforma a graça em recompensa, embora a graça não dependa de merecimento.

A incredulidade segue outro caminho: “Como um Deus santo pode amar alguém como eu, que fez isso e ainda pensa aquilo?” Ela olha para dentro e não encontra razões para merecer o amor divino. E tem razão nisso. O que esquece é que o amor de Deus nunca dependeu do que existe em nós, mas de quem ele é.

Spurgeon destacou que Deus não se envergonha de chamar de filhos aqueles que o mundo considera insignificantes, sem prestígio ou talentos reconhecidos. A grandeza desse amor ultrapassa todas as categorias humanas de merecimento.

Romanos 8:29 ensina que Deus nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho. É isso que a maturidade cristã produz: uma transformação progressiva que nos torna semelhantes a Cristo, não em perfeição imediata, mas em caráter e conduta.

Filhos criados por seus pais inevitavelmente assimilam gestos, valores, maneiras de falar e formas de reagir. Essa semelhança se desenvolve pela convivência. Da mesma forma, quem caminha com Cristo, permite que a Palavra molde o coração e se submete à ação do Espírito Santo torna-se progressivamente mais parecido com ele.

Isso também traz esperança a quem vem de famílias disfuncionais. Os padrões herdados de pais e avós não precisam determinar o futuro. O Espírito Santo não está limitado pelo histórico familiar. Ele transforma o coração e nos ensina a viver a partir de uma nova identidade.

Essa identidade se manifesta no mundo por meio da verdade, da bondade e da beleza. A verdade tem seu fundamento em Cristo e transforma não apenas nossas opiniões, mas também nossas atitudes cotidianas. A bondade vai além de palavras gentis ou gestos protocolares. É o amor que se manifesta quando somos contrariados, tratados injustamente ou tentados a responder com dureza.

A beleza, por sua vez, aparece em uma vida que reflete a verdade e a bondade de Deus. É a família que, embora imperfeita, busca viver sob sua direção. É a pessoa cuja presença deixa marcas positivas. É um caráter que continua sendo lembrado mesmo depois que alguém vai embora.

João também nos lembra que o mundo não nos conhece porque não conheceu a Cristo. Isso não é pessimismo, mas uma realidade que nos liberta da busca incessante por reconhecimento. Quem constrói sua identidade sobre a aprovação do mundo edifica sobre a areia, pois o mesmo sistema que rejeitou Jesus pode rejeitar aqueles que procuram viver como ele. Nossa identidade não depende dos aplausos, mas daquilo que Deus declarou a nosso respeito.

O convite de Primeira João 3:1 é mais profundo do que parece. Ele nos chama a reconhecer a mão de Deus em nossa história, inclusive nas ausências e nos processos que nos formaram, e a descansar em uma certeza que nenhuma circunstância pode desfazer: somos, de fato, filhos de Deus. E isso muda tudo.