Herança Graciosa
Paulo Schmoeller · Efésios 1:3-14
Descrição
A herança graciosa de Deus é talvez o bem mais valioso que existe e, ao mesmo tempo, o mais subestimado por aqueles que já o receberam. Efésios 1:3 declara que Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo. Não algumas, nem apenas as que merecemos. Todas. Ainda assim, muitos cristãos vivem como se a conta ainda não tivesse sido paga.
Essa contradição está no coração de Efésios 1 e representa um dos maiores legados da Reforma Protestante: a salvação é pela graça, mediante a fé, não por obras, para que ninguém se glorie.
Existe uma diferença entre uma herança legítima e um golpe disfarçado de herança. No golpe, alguém promete milhões, mas exige dados e pagamentos antecipados. A promessa é grande, mas o preço está escondido. No final, quem lucra é o golpista.
A herança de Deus funciona de maneira completamente diferente. O preço foi altíssimo, mas quem o pagou não foi o herdeiro. Foi o próprio Deus, ao entregar seu Filho na cruz. Quando Efésios 2:8 afirma que a salvação não vem de obras, declara que o débito já foi quitado integralmente.
Imagine um grupo de pessoas em um restaurante elegante, escolhendo os pratos mais baratos porque estão com o dinheiro contado. No final, descobrem que o chefe da empresa pagará toda a conta. A reação é imediata: por que não nos avisou antes?
Muitos cristãos vivem assim. Sabem que Jesus morreu, mas, ao se aproximarem de Deus, continuam escolhendo as migalhas, porque a culpa os impede de acreditar que o banquete está disponível. Isso não é humildade, mas desconfiança disfarçada de espiritualidade.
Paulo afirma em Efésios 1:7-8 que a graça foi derramada abundantemente. Não em pequenas doses para quem se comporta bem, mas com generosidade. Desfrutar dessa abundância não é arrogância. É fé.
Há 509 anos, Martinho Lutero foi profundamente impactado pela declaração bíblica de que o justo viverá pela fé. Naquele tempo, a salvação era apresentada com complementos: graça, mas também indulgências, purgatório e esforço humano para merecer a misericórdia divina. Lutero percebeu que, se a graça exige um complemento humano, deixa de ser graça.
Em sua tese 62, afirmou que o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus. Não as indulgências ou os méritos acumulados, mas o evangelho de Cristo, disponível a quem se arrepende e deposita sua fé no Crucificado e Ressurreto.
Efésios 2:8-9 é claro: somos salvos pela graça, mediante a fé. Contudo, muitos confundem fé com pensamento positivo, como se acreditar fosse visualizar resultados até que aconteçam. A fé bíblica é diferente.
Abraão é chamado pai da fé porque obedeceu a Deus sem conhecer o destino. Ele não sabia para onde ia, mas sabia em quem confiava. A fé bíblica não é confiança no resultado, mas naquele que guia. Mesmo sem enxergar o caminho, podemos confiar que o Senhor conhece cada passo.
Nossa fé não está no emprego, no cônjuge, no presidente ou em nossas próprias forças. Está no Senhor, que começou a boa obra e é fiel para completá-la.
Em Efésios 1:13-14, Paulo apresenta o Espírito Santo como penhor da herança: a garantia de que Deus cumprirá suas promessas. Receber o Espírito não é receber algo incompleto, mas ter a certeza de que a obra de Deus chegará à sua plenitude.
E há algo ainda mais surpreendente no verso 11: em Cristo, também fomos feitos herança. Não apenas recebemos uma herança; somos a herança de Deus. Ele nos escolheu antes da fundação do mundo e nos predestinou para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. A herança graciosa não é apenas aquilo que Deus nos dá, mas também revela o valor que atribui aos seus filhos.
A mentalidade de escassez é inimiga da vida cristã. Faz quem foi convidado para o banquete esperar pelas migalhas e quem recebeu uma herança viver como mendigo, porque a culpa parece mais familiar do que a graça.
Deus não preparou um pequeno lanche para os seus, mas um banquete. O convite está aberto, não porque somos merecedores, mas porque o anfitrião é generoso. A herança graciosa é destinada justamente a quem jamais poderia comprá-la e reconhece que não merece recebê-la.
É para essas pessoas que Efésios 1 foi escrito. E é a elas que o convite permanece válido hoje: desfrute daquilo que Cristo já pagou, alicerce sua fé naquele que não falha e permita que a graça seja reconhecida como aquilo que sempre foi: a herança mais preciosa que alguém pode receber.